A PSICOLOGIA EXISTENCIAL


Allan de Aguiar Almeida

Foi inicialmente como um movimento popular que se deu inicio ao que chamamos hoje de existencialismo, um movimento de vanguarda abarcando uma heterogênea classe, indo de poetas, artistas universitários, clérigos e tantos outros que acabaram por dar ao movimento uma gama de amplos aspectos e formas. O existencialismo rapidamente emergiu como uma grande força no pensamento moderno se ligando a psicologia e a psiquiatria. Suas bases se sustentam ainda por grandes nomes da filosofia como S. Kierkegaard, M. Heidegger e J. P. Sartre.

Com Heidegger é que temos a criação da filosofia existencial em nosso século e ainda sua junção com a psicologia e a psiquiatria. A ontologia heideggeriana é de que o homem é um ser no mundo onde “o homem tem sua existência por ser–no-mundo e o mundo tem sua existência porque há um ser para revelá-lo”. O que nos leva a perceber a unicidade do ser e do mundo.

Partindo de que a descrição dos dados da experiência imediata busca compreender e não apenas explicar os fenômenos é que Heidegger, fenomenologicamente, vai se ater naquilo que se apreende da experiência imediata, na forma a qual encontramos, ingenuamente, sem critica ou juízo algum. Desse modo a “psicologia existencial pode ser definida como uma ciência humana que emprega o método da analise fenomenológica”.

Na Europa temos figuras de renome como Ludwig Biswanger, vindo a definir a análise existencial como a analise da existência fenomenológica da existência humana real, e Medard Boss que devido a seu estreito vinculo com a filosofia heideggeriana acabou por elaborar uma forma bem própria e singular de psicoterapia, a Dasein análise. O existencialismo percorreu fronteiras, ampliou-se pela Europa, chegando inclusive na América onde encontra sua máxima expoência com Rollo May.

Uma das principais particularidades da psicologia existencial em relação aos outros sistemas psicológicos se da pela oposição a aplicação do conceito de causalidade das ciências naturais aplicado as ciências humanas e especificamente à psicologia.

Rejeitando dessa forma a causalidade, acaba-se também por não aceitar o pensamento positivista, materialista e determinista, dessa forma a psicologia existencial mostra que a psicologia possui um modo de se sustentar bem próprio não precisando assim de se firmar ou mesmo seguir modelos de outras ciências.

O método assim aplicado, a fenomenologia, tende a seus próprios conceitos como ser-no-mundo, modos de existência, liberdade, responsabilidade, vir-a-ser, transcendência, espacialidade, temporalidade e muitos outros todos derivados da ontologia heideggeriana.

Para melhor explicar, a psicologia existencial nega aquilo que seja subjacente ao fenômeno, onde estes são em todo seu imediatismo. E tem sua finalidade em deixar transparecer a estrutura articulada do ser humano. Critica ainda todo arcabouço alienante no qual se fragmenta e sutura o humano num discurso tecnologizado, burocrático e mecanicista.

Na estrutura da existência está o Dasein, o ser-aí, o todo da existência humana, esta que é abertura para o mundo, existência total que é e virá a ser, o tornar-se presente e ser presente, na qual esse homem não tem existência independente de mundo e este não tem existência independente do homem, fato que é marcado desde já pela linguagem.

Esse ser no mundo é o que vai marcar a operação de univocidade entre sujeito e objeto restaurando a unidade entre o homem e o mundo, mundo este marcado por três aspectos: as regiões fisio-biologicas, o ambiente humano e aquele no qual se acha a pessoa e seu eu, incluindo o corporal.

Dentro de toda a dinâmica e desenvolvimento da existência podemos perceber que o homem escolhe viver autenticamente ou inautenticamente havendo conseqüências radicais para ambas. São marcas fortes da psicologia existencial a questão da culpa, da angustia, da temporalidade e consequentemente do ser-para-a-morte.

A psicologia existencial que surgiu da filosofia e que desta guarda e mantém estreitas relações, teve grande repercussão sobre a teoria e à pratica da psicologia como um todo, fazendo surgir outras técnicas e pontos de vista tanto em campos do aconselhamento como da psicoterapia. Marca uma função de seguir as coisas em si mesmas na orientação de não se deixar perder no seu relacional, em seu contato com a experiência e ao cotidiano.

A Cultura: o Homem como um ser no mundo

Buscando ver o que há de mais originário no humano e todo seu jogo relacional com o mundo temos assim as fases de um originário estranhamento, seguido de uma domesticação e uma habituação. Esse homem é aquele que por segurança vê sempre dentro de determinadas contextualizações uma moldura que define e delimita as coisas, que busca sempre enquadrar os objetos inusitados em sistemas próprios de referencias, que procura determinar a utilidade das coisas, nomeando-as, significando-as, enquadrando dentro de um sistema próprio de signos, a língua, e de um modo mais refinado e sofisticado o mito, as religiões, a ciências, os discursos em geral.

Transfigurando a natureza em cultura, o homem se afirma como sujeito que se autoconstrói permanentemente transformando a realidade bruta em lugar habitável, se fixando em um modo de existir frente aos infinitos outros possíveis, no qual uma interpretação da realidade se transforma na própria realidade.

O mundo sempre sendo apenas uma interpretação da realidade e cada época apenas um modo de o ser se diferenciar é sustentada pelo pensamento filosófico no esforço para descobrir o sentido do ser que o anima e a própria interpretação da realidade que o sustenta.

Tal abordagem do homem como “ser no mundo” nos leva ao questionamento de nosso tecnicismo-científico frente às situações atuais e ao longo da própria história. A Era Moderna frente às análises das ciências sociais e do questionamento filosófico referente ao “sentido do ser” vem a recuperar a estranheza das coisas frente ao estatuto da técnica mecanicista e da ciência.

Perpassando a própria história do pensamento ocidental vemos a representação fixista da realidade através do pensamento metafísico através da idéia por Platão ou da substância por Aristóteles que aprisionam o ser em um dos momentos do tempo, que vêem como uma defesa contra a vertiginosa experiência do ser em seu fluir originário, como vir-a-ser.

A idéia metafísica é a da pernamência, do estável, do eterno presente, com representações fixas e imutáveis, controlados e dominados pela razão deixando-se de lado as contingências históricas com o objetivo de ultrapassar a natureza em sua fragilidade e inconstância. Quer em Platão, Aristóteles, quer em passando na Idade Média por Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e pela Escolástica, quer em Descartes inaugurando a Modernidade temos as buscas pelos fundamentos seguro da verdade.

A antiga idéia da substancialidade é revestida em termos de cogito em “subjetividade” seguindo o modelo fixista aristotélico, pela idéia de substancia pensante, substancia extensa e substancia divina, mantendo o seguro critério de orientação frente ao caminho da verdade, sempre essencializada. O mundo que o pensamento cartesiano mostra é o mundo moderno da ciência e da técnica que se absolutiza como o caminho a verdade, forma única e autorizada de conhecimento, que se faz de neutra e totalmente objetiva, na qual a realidade se mostra qual como tal, do modo mais autentico, puro e original.

Descartes criou assim o fundamento metafísico de emancipação moderna do homem, na qual a imobilização do ser nas representações por Platão e Aristóteles alcançam o ponto máximo na metafísica moderna fixando-se os fenômenos em modelos imaginários, reduzindo-se a natureza à extensão e o espírito ao pensamento na interpretação moderna do ser.

O pensamento e a filosofia de Heidegger nos faz ir ao encontro com as condições de possibilidades de toda nossa civilização e cultura e de todos os fundamentos esquecidos, onde ainda tudo é visto no horizonte do manipulável, da instrumentalidade, da objetivação e do representável somados à finalidades tecnológicas e políticas.

Em direção a pós-modernidade, em momentos de questionamentos e crises reorienta-se o olhar para além daquilo que se faz de seguro, para além da própria cultura, mundo, ideologia e significados pré-estabelecidos e se reinterpreta a própria realidade rompendo com a funcionalidade sujeito/objeto se abrindo as coisas em si mesmas.

Isso a partir de uma visão contemporânea que nos mostra a diversidade de apreensão e significação do real anterior ao próprio conhecimento, onde o homem não se conhece em seu modo imediato e seguro, no qual por um olhar ôntico somos contemporâneos de nos mesmos e por via ontológica estamos longe de nossa própria verdade.

Fazendo um corte nessa dialética da razão, da consciência cartesiana, temos o originário inconsciente freudiano que vem a articular aquilo que é da ordem do desejo, onde a representação vem antes da “idéia de algo”, na qual o homem não é fundamento da consciência, mas da inconsciência, daquilo que se faz de desconhecido e de não sabido. O desejo, a libido sempre atraída pelo mistério, o próprio mistério cujo objeto de desejo é irreal, simbólico, imaginário, pressionando sempre para frente, numa busca inconstante e incessante frente todas as possibilidades do ser.

Assim o pensamento pós-moderno deve assumir as dimensões esquecidas da realidade humana pelas vias da razão, da paixão, conhecimento e desejo, o pensamento original deve ser vivido em função da razão e da existência, como via bem peculiar de acesso à realidade das coisas mesmas. A razão instrumentalizada deve assim se unir ao pensamento meditativo redescobrindo e fazendo os caminhos frente a uma nova civilização e ás infindáveis possibilidade de ser.

O Existencialismo em Geral

A idéia geral do existencialismo caracteriza-se por focar a “existência”, ao que existe, a existência daquilo que existe, privando-se, sobretudo em se voltar ao autentico real, ao que se apresenta de próprio e nos escapa, tendo como tarefa a compreensão concreta do abstrato. Pode-se dizer que seu objeto é a unidade da existência e do existente.

A existência enquanto aquilo que se esconde está em nossa volta, em nós, somos nós; onde atribuímos a existência ás coisas que sem nós não existiriam. Para se constatar uma objetividade abstraímos de nossa própria existência e nos concentramos na existência das outras coisas, já que a consciência de existir é muito rara.

Pela concepção clássica existe o que é real e não unicamente possível; tudo o que passou da essência à existência podemos dizer que existe ou é. Pelo existencialismo “o existir” não se faz como sinônimo de “ser”, dado que se apreende a existência no existente, mas não em si mesma.

A existência se faz como um ato, e não um estado como se poderia imaginar, é a passagem da possibilidade à realidade, é a impossibilidade enquanto posição definitiva sendo constante ultrapassamento daquilo que somos.

O existir implica liberdade, dado que só existe aquele que se escolhe, ou seja, a existência é um privilégio humano. Essa existência é aquilo que se faz de constante transcendência rumo a um mais-ser.

Assim em linhas gerais a existência é o que precede a essência o que nos leva a não podermos nos livrar do compromisso de constituir e se constituir no mundo enquanto Dasein.


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